Por uma Fórmula 1 mais Punk

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Maior símbolo do Rock

Nada melhor do que aproveitar o dia mundial do Rock para fazer uma analogia entre o gênero musical mais popular do mundo com a categoria de corridas mais importante. E acredite. Eles têm muito em comum. Aumente o volume!

Quem tem algum conhecimento musical já deve ter ouvido falar na palavra “Punk”. Aquele rock barulhento feito por gente de moicano com jaquetas de couro provocou uma revolução na indústria musical. A Fórmula 1 provavelmente precisa que o mesmo aconteça com ela.

Antes que pensem que esteja louco e fechem a página explico. Além de escrever uns rabiscos no Motorpasion, também gosto de arranhar algumas notas musicais. E tenho a tendência a me aprofundar na história de tudo aquilo que me fascina. Com a música e mais especificamente o rock, não foi diferente.

Surgido pelas mãos calejadas de bluseiros negros americanos na década de 50, o Rock’n Roll nada mais era do que a fusão do blues e do country clássico tocado com mais velocidade, para ser mais empolgante. Jerry Lee Lewis e Little Richard deram o pontapé inicial, mas foi só com o surgimento de Elvis Presley e mais tarde com os Beatles que o estilo ganhou as grandes massas definitivamente.

Assim como o Rock, o automobilismo era coisa de gente louca em meados do século passado. Quem se interessava pela coisa, tinha um gosto pela aventura, pouco medo da morte e estava em busca de diversão. Apesar de serem potencialmente mortíferas, as corridas se popularizaram tanto que em 1950 criou-se o primeiro campeonato mundial organizado. “Fórmula 1” para os íntimos.

Mas ambos começaram a atrair cada vez mais público e interesse. Agora pessoas de todos os gêneros e classes sociais começaram a dar audiência. Consequentemente, começaram a chamar mais e mais dinheiro. Assim a essência de ambas as atividades começou a mudar.

Um dos maiores simbolos do Rock Progressivo é o Emerson Lake and Palmer

O Rock começou receber influência das mais diversas formas. Mudou tanto que no começo dos anos 70, pouco tinha a ver com o estilo criado pelos negros americanos. O som agora era trabalhado, com toques orquestrais, músicos com bacharelado em música, letras filosóficas e plateia seletiva. Os shows também começaram a ficar cada vez mais caros e produzidos. O preço dos ingressos subiu à estratosfera. E os músicos eram tratados com tanta pompa que estavam quase se achando deuses imortais.

Felizmente havia muita gente inconformada com isso. Começou a surgir uma onda de bandas que resgatavam o som simples, e básico do começo. Foi época do surgimento dos Ramones nos Estados Unidos e os Sex Pistols na Inglaterra sinalizando tudo o que havia de errado no Rock da época. Eles e muitos outros mostravam o quanto o estilo havia se elitizado e perdido sua essência e contato com o público original. Deixaram um legado que dura até os dias de hoje e mudaram o Rock para sempre.

O Yes era bom pra caramba. Mas foi chamado de “Dinossauros” por Johnny Rotten

Certo. Mas o que isso tem a ver com F1?

A Fórmula 1 também cresceu demais, praticamente na mesma época com o advento do patrocínio. Alguém descobriu que estampando a logomarca da sua empresa na lataria dos carros, dava um enorme lucro. Não demorou muito para todo mundo fazer o mesmo.

Estratégias de marketing cada vez mais elaboradas começaram a ser boladas. Quantias cada vez maiores de grana começaram a ser despejadas em busca da melhor autopromoção. Paralelamente a isso, as montadoras de automóveis entraram de cabeça na competição buscando vencer o oponente na capacidade tecnológica que conseguia produzir. Em certo momento na década de 90, os carros estavam tão avançados que praticamente corriam sozinhos.

Os Ramones desafiaram o Status Quo na música…

Mas foi preciso mais 10 anos para os alarmes soarem em definitivo. Durante a década de 2000, os valores inflacionaram a tal ponto que apenas multinacionais de alto calibre podiam ingressar na Fórmula 1. E o pior é que os dirigentes, completamente isolados da realidade, exigiam uma quantia astronômica em taxas, unicamente para um time poder estrear. A festa acabou quando a grande crise econômica de 2008 começou.

De lá para cá, a maioria das montadoras fugiu para bem longe sem muitas explicações. Equipes de tradição genuína das pistas praticamente não existem mais restando apenas os estabelecidos do passado como Mclaren, Sauber e Williams. E os demais são estruturas criadas por empresas, todas efêmeras e, que vem e vão em pouco tempo sem deixar saudades.

...assim como o The Clash na Grã-Bretanha

No começo desse ano, o respeitabilíssimo jornalista Joe Saward foi enfático: seis times estão ameaçados de fechar as portas no final da temporada. Com a maioria das equipes sediadas na Europa, continente que vive uma crise das brabas, não é preciso ir muito longe para concluir que é verdade. A confirmação mais clara veio do presidente da Ferrari Luca Di Montezemolo: outrora, elitista e a favor da gastança desenfreada, agora o italiano clama por um drástico controle de gastos. Ou seja, a água chegou no nariz mais empinado das equipes.

É ai que ligo o Rock com a Fórmula 1: não seria a hora da categoria também fazer o seu “movimento Punk”? Não estou dizendo para termos gente com penteado moicano e jaquetas de couro com rebites pelos boxes. Mas, não seria bom se eles se reinventassem,fizessem um olhar crítico para circo como um todo, chacoalhasse toda a futilidade adquirida nesses anos todos e preservassem apenas o essencial?

Jacky Ickx conversa tranquilamente com fãs no paddock, 1969
Jacky Ickx conversa tranquilamente com fãs no paddock, 1969

Convenhamos: não é necessário um motor home de 2 hectares para trazer todo o equipamento. Do mesmo modo que também não precisa transformar o paddock numa segunda Wall Street, como praça de negócios. A taxa cobrada aos autódromos não deveria ser tão exorbitante assim como o valor dos ingressos.

Falando em público, porque eles ficaram tão distantes? Mal dá para se ver o piloto durante o dia da corrida. O pobre coitado está indo e vindo de diversos eventos publicitários. Isso é mesmo necessário? Quem deveria ser mais valorizado, o gerente de marketing que nem sabem quem foi Ayrton Senna ou o sujeito na arquibancada que acorda cedo, enfrenta fila, sol e chuva para ver o seu ídolo passar na sua frente de longe?

Público e piloto bem divididos na atualidade
Público e piloto bem divididos na atualidade

E também temos que admitir que a prática do congelamento de motores e proibição de testes é apenas conversa para boi dormir. Só serviu para aumentar o custo com simuladores e manter a hierarquia como estava por mais tempo. Até a pobre Maria de Villota pode ser considerada uma vítima dessa regra besta, sendo a Marussia forçada a fazer um teste em linha reta num aeroporto, longe da segurança de um autódromo convencional.

Assim como dá pra fazer sucesso no Rock’n Roll sem ser um gênio da música e sem fazer um mega show monstruoso, dá para fazer uma boa corrida, envolvente para o público, excitante para o piloto e rentável para todos sem exorbitâncias. Basta querer.

Até a próxima!

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